Economia Direta

“A desigualdade racial não é um problema do trabalhador negro, mas da sociedade brasileira”, alerta pesquisador do Ipea

22/06/2026 - 08h00

  • Entrevista: Técnico de planejamento e pesquisa do IPEA, Marcell Machado

O pesquisador Marcell Machado, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), alertou que o racismo ainda marca o mundo do trabalho no Brasil. Convidado deste episódio do Economia Direta, o técnico de planejamento e pesquisa defendeu ações afirmativas, mais presença de pessoas negras em cargos de liderança e pesquisas que incluam diferentes saberes.

Marcell Machado participa do coletivo Presença Negra, criado pelo Ipea e pelo Iphan há cerca de um ano e meio, como parte de debates do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, em 2024. A ideia é promover reflexões e trazer vozes externas que retratem a luta e os desafios da igualdade racial no Brasil. Segundo o pesquisador, essa escuta pode melhorar a qualidade das pesquisas sobre racismo e políticas públicas.

“São medidas muito importantes no sentido de que o racismo, a desigualdade racial não é um problema dos servidores negros ou dos trabalhadores negros, mas é um problema da sociedade brasileira. O racismo causa danos, inclusive em nível econômico,” enfatizou o Machado.

O técnico destacou que o Ipea pesquisa a questão racial no Brasil há mais de 20 anos. De acordo com ele, o tema aparece em estudos sobre desigualdade, mercado de trabalho, saúde e impactos econômicos do racismo. O pesquisador afirmou que o concurso de 2024, o primeiro do instituto com cotas, aprofundou essa discussão interna.

Sobre as ações afirmativas, Marcell Machado disse que elas ajudam a mudar o lugar historicamente reservado à população negra no Brasil, marcado profundamente por quase 400 anos de escravidão.

“Porque qual é o lugar do negro do Brasil? São esses piores empregos, esses empregos mais precarizados, aqueles empregos muitas vezes invisibilizados. Mas quando você traz a ação afirmativa, você traz a perspectiva de ter esses essas pessoas negras com curso superior e melhores empregos, como médicos, advogados, sociólogos. Por si só, essa é uma política já revolucionária, mas ela sozinha, obviamente, não resolve toda a questão. Qualquer medida de política pública, de reforma que venha a ser feita, precisa levar em conta que o Brasil, ele é fundado no racismo,” explicou.

O pesquisador lembrou a dificuldade de trabalhadores negros no setor público e privado para alcançar postos de direção.

“Tem um conceito da professora Cida Bento que é o ‘pacto da branquitude’. Essa questão dos círculos. A questão dos esportes, a questão da cultura e de todo esse círculo de amizade, de interação, que muitas vezes os negros estão fora. Então, muitas vezes não necessariamente é uma coisa consciente, mas, se eu sou uma pessoa branca, de classe média alta, eu só tenho pessoas iguais a mim, as indicações (para cargos de direção) vão vir nesse sentido,” disse.

Recentemente, o Ipea e o Ministério da Igualdade Racial lançaram o Guia de Igualdade Racial e a Cartilha de Gestão Pública Antirracista para ampliar o enfrentamento do racismo institucional na administração pública.

Apresentação: Ana Raquel Macedo

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